Ao Cair da Tarde

 

Ao cair da tarde era um programa de rádio, que no quebrar do Astro Rei, embalava ânsia do descansar. Rádio Difusora, cujas ondas potentemente lançadas de sua torre penetrava rincões distantes, descodificadas por rádios de pilha, de sala ou vitrolas. Aquele chiado típico da “caixa mágica” completava o pacote simples e sublime.  

Nessa quadra de hora, os trabalhos diários eram gradativamente suspensos. Nos campos, enxadas eram postas nas costas, ferramentas guardadas, sessões encerradas. O cheiro pungente de café irradiava qual as ondas da estação predileta do Agreste, que traziam canções que falavam de amor e calma, se assemelhando a paz da Terra. Os pássaros deitavam as últimas notas, já à boca dos seus ninhos. Os bezerros nos currais, clamavam pelas mães a procura do providencial leite. Um cachorro latia ao esmo. O farfalhar do capim alto e verde enchia o mundo de uma poesia nobre, acompanhando o cansaço do sol, que pouco a pouco alcançava o seu destino, no horizonte, já emitindo raios laranjadas de despedida.  

E o rádio estava ligado. “Ao cair da tarde”, o programa do romantismo. Era interessante, bucólico, apaixonante. O chiado da estática. As pilhas ficando fracas e sendo substituídas num rompante de pragas do ouvinte fiel que não queria perder um segundo. Era um ritual. Os alpendres se enchiam. As varandas, ocupadas. O cair da tarde, o sol, indo embora, beijando uma serra ao longe. A maioria das pessoas agrestinas residiam em sítios e fazendas. E  a paz que se espalhava neste instante era cortante, cheia de romantismo. Tudo desacelerava. As folhas de uma jaqueira acolá bulia lentamente, cedendo às primeiras brisas vinda do mar. Na venda, compras da noite se fazia: pães, litros de arroz, velas, querosene para candeeiros. O rádio do vendeiro no programa Ao Cair da Tarde.  

Um ralo se fazia ouvir da cozinha mais simples. Milho se transformando em farelo para ato contínuo se converter em delicioso cuscuz. Uma vaca mugia ao longe. Vozes espaças meio preguiçosas pedindo pra noite encobrir a Terra e encerrar as lutas de mais um dia que se finda. Do Sol, apenas um lampejo meio avermelhado. Uma estrela piscava, convidando as outras para ilustrar a noite. Nesse recorte, as interferências aumentavam e o chiado do rádio aumentava, e uma baixa de potência do transmissor piorava. Mas, a Difusora alí estava, tocando a saudade,  convidando ao recolhimento, falando de vida nas notas do amor.  

É que hoje tudo mudou. Já não tem Difusora nem rádio AM. Ficou tudo no acervo de tarja “passado”: bons momentos guardados. Veio a noite e suprimiu o dia. Não há calma, nem os detalhes do campo. Praticamente não se vê o quedar do Sol em suas últimas apresentações. Os pássaros, tontos procuram entre postes, fios e torres um lugar para pouso, aperreados pela luz fria branca que deixam-os tontos.  

Ao cair da tarde... 

(José Batista Neto)

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